8.8.11
Evocação de Maria Lúcia Lepecki
Há cerca de duas semanas desapareceu do nosso convívio, com 71 anos de idade, a popular mulher de letras, Maria Lúcia Lepecki, brasileira de nascimento, portuguesa de adopção e de coração, desde 1981 Professora Catedrática de Literatura Portuguesa Contemporânea da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, cidade em que se radicara, logo no início dos anos 70 do século passado.
Por ter com ela mantido, numa ocasião, animada troca de opiniões, como adiante relatarei, a sua morte chocou-me particularmente.
Por feliz acaso, na última 6.ª Feira, 05 de Agosto de 2011, entre as 13h00 e as 14h00, tive o grato prazer de ouvir, na Rádio, num programa da Antena 2, uma sua longa entrevista, dada, creio, em 2007, a João Almeida, em que ela, com a exuberância discursiva que lhe era habitual, falou diversamente da sua vida, no Brasil, em Portugal e em França, em Paris, na Sorbonne, onde terá começado a preparar a sua Tese de Doutoramento, em Literatura Portuguesa, incidindo particularmente na obra literária de Camilo Castelo Branco, um dos escritores mais genuinamente portugueses, característica que afinal não afasta brasileiros, como algumas vezes se ouve por aí dizer, com piedade, até a gente tida por responsável.
Era Maria Lúcia Lepecki uma figura bastante popular entre nós, tendo participado várias vezes em Programas de Rádio e de TV, em que chegou mesmo a apresentar um espaço de tertúlia, com conversas muito interessantes sobre temas da actualidade
Na entrevista a que me refiro, ela traçou uma breve retrospectiva da sua vida, pela qual se fica a perceber a origem do seu interesse por Portugal e pela sua literatura.
Pelos Pais e sobretudo motivada pela afeição de seu Pai pela História e pela Literatura do nosso país foi de onde ela herdou esse seu profundo interesse pela cultura portuguesa.
Lepecki referiu mesmo que seu Pai, leitor assíduo de autores lusitanos, conhecia com pormenor a vida dos Reis portugueses, conhecimento haurido em imensos livros de que dispunha, entre os quais avultavam três exemplares de Os Lusíadas estrategicamente distribuídos pela casa, a denotar leitura frequente e continuada do nosso conspícuo Vate quinhentista.
Terá certamente sido por aqui que Lepecki começou a prender-se sentimentalmente a Portugal, afeição depois aprofundada pelo casamento com cidadão português. O ambiente de amor das coisas portuguesas em que foi criada, na infância e adolescência, explicará com certeza a sua opção de vida adulta e profissional.
A citação completa da 1.ª estrofe – Meu Portugal, meu berço de inocente… - do Prólogo do Poema D. Jaime, de Tomás Ribeiro, escritor e obra hoje quase desconhecidos dos nossos compatriotas, apesar de o seu nome ter sido dado a elegante artéria da cidade de Lisboa, ali às Picoas, perpendicularmente à Avenida Fontes Pereira de Melo, serviu, na entrevista, para bem ilustrar o conhecimento e o carinho que atribuia a tais matérias.
A arquitectura portuguesa, urbanística, sobretudo, por se considerar fundamentalmente bicho urbano, também a cativou imenso, apontando com agudeza, a sua particular percepção da essência do Largo português, distinto do espaço público designado de Praça, diferença que Lepecki aqui notava com grande relevo e especial ternura.
Disse ter sido seu sonho adquirir uma casa térrea num bairro tradicional de Lisboa, desiderato, todavia, que nunca pudera realizar.
Como seria quase inevitável, o entrevistador perguntou-lhe como via ela a situação da Língua Portuguesa, ao fim de tantos anos a leccionar jovens universitários na sua Faculdade de Letras.
Apontou Lepecki dois problemas especialmente graves, em Portugal, sobretudo, realidade que naturalmente conhecia melhor, por aqui ter trabalhado quase 40 anos, relacionados com o uso do idioma, na sua forma oral ou coloquial, que são a sua falta de clareza, pela articulação deficiente, incompleta das sílabas das palavras, na boca dos portugueses, em que sofrem amputações várias, que corrompem e dificultam a sua percepção.
Citou, por exemplo, «O Secretário», que nos chega aos ouvidos quase como «o cretário», por via de uma perigosa tendência para o ensurdecimento do idioma, fenómeno típico da oralidade portuguesa, que a Escola não tem conseguido contrariar, pelo contrário, antes aparece ter agravado, pelo descaso em que os assuntos da Língua caíram, relegados para o esquecimento, na degradação geral do Ensino registada nos últimos decénios, particularmente sentida no domínio do Idioma, mesmo entre pessoas saídas de Universidades.
Sobre a questão ortográfica também se pronunciou, desvalorizando as diferenças entre as grafias do Português no Brasil e em Portugal, não sentindo necessidade da sua uniformização. Disse sempre ter lido obras literárias nas duas formas, desde muito cedo, na sua vida, separando-as intelectualmente, sem qualquer confusão.
A propósito deste tipo de questões, relembro uma animada conversa que com ela mantive, na sequência de um colóquio ocorrido haverá cerca de 15 anos, numa Feira do Livro de Lisboa, em que a confrontei com alguns típicos solecismos da fala brasileira, em expressões como : «Você já falou com teu Pai» ? ou «Você quer entrar, então entra» ou «Tu vai ver o que eu vou falar…» etc., etc., em que é evidente a corrupção da sintaxe própria da Língua Portuguesa, como de qualquer outra língua de origem latina, línguas que jamais admitiram tais aleijões, nem nunca o poderão consentir, sob pena de deformação irreparável do seu paradigma sintáctico.
Ela aqui concedeu que havia erros crassos naquelas frases, mas sem lhes atribuir demasiada importância, radicando o problema, a seu ver, na influência ali sofrida pelo Português a partir das línguas nativas dos índios do Brasil, bem como dos diversos falares dos povos africanos para lá levados durante o tempo da Colonização portuguesa.
Todas estas línguas, dialectos e crioulos, em contacto com o Português, acabaram por influenciar a sua forma de o falar no território por imensas populações, só muito tardiamente alfabetizadas, praticamente só no século XX se registando um esforço sério e continuado nesse propósito.
Em consequência, certos erros de linguagem têm persistido e até ganho difusão inesperada, como citou o seu próprio caso de Professora Universitária de Literatura Portuguesa radicada longos anos em Portugal e dando por si, por vezes, a dizer «os livro» em conversa com seu filho, que logo a censurava e ela se penalizava, por tamanha incongruência em figura de Professora, de Faculdade de Letras, ainda por cima.
Em contraste, os erros de linguagem que mais a incomodavam em Portugal, indicou-mos, eram os das expressões : «coloquem os vossos livros em cima das mesas», em lugar de «colocai os vossos…» ou de «coloquem os seus… de vocês, dos senhores,…», como de facto deveríamos dizer, mas não o fazemos e já nem sequer do erro nos apercebemos de tanto o praticarmos e de o vermos praticado.
Alguns até já deixaram de o reconhecer, como erro, julgando que assim o eliminam de vez. Os próprios Professores, de todos os graus de Ensino, o adoptaram e já nem o assinalam, muito menos o condenam e assim ele se vai eternizando no nosso modo de falar.
Também na pronúncia portuguesa Lepecki verberava deficiências óbvias, que tornam a Língua quase imperceptível para estrangeiros, quando falamos coloquialmente, de forma atabalhoada, pretensamente rápida, mas sem clareza na sua elocução.
Para reforçar este ponto de vista, Lepecki foi ao ponto de me recitar a estrofe inicial de Os Lusíadas, nas duas diferenciadas pronúncias, a portuguesa e a brasileira, levando-me a concordar que esta última era, na realidade, muito mais perceptível para qualquer ouvinte, nacional ou estrangeiro, com algum conhecimento do idioma.
No decurso da nossa interessantíssima cavaqueira, Lepecki foi citando várias obras e autores onde eu, na sua opinião, poderia ver assuntos correlatos bem tratados, dando-se o caso, para sua surpresa, de eu invariavelmente lhe ter declarado que os havia lido, tendo-os todos em casa e frequentemente também os consultando.
À medida que o tempo passava e o marido, já algo enfadado com o prolongado colóquio, insistia com ela para que terminasse a conversa e retomasse o caminho de regresso a casa, Lepecki teve este desabafo tipicamente brasileiro, até na expressão : «Deixa eu falar com este «cara», que ele me parece uma pessoa muito bem informada», passe o generoso elogio, naturalmente agradável de escutar, em especial, da parte de quem dele faz uso moderado.
No final, ainda me convidou a prosseguir o diálogo, escrevendo-lhe para a Faculdade, coisa que já não fiz, mas de que certamente tiraria benefício garantido, pela sua condição de intelectual bem formada e de cultura bastante ampliada, pela sua longa experiência de docência e de vida, dividida entre o Brasil e Portugal, mas já com maior duração entre nós, por sua opção duplamente amorosa.
Certamente por isso Portugal lhe concedeu merecida condecoração, salvo erro no ano 2000, por ocasião do Dia Mundial da Mulher, ainda bem a tempo de lhe pagar tanto amor e simpatia que soube difundir nesta velha Pátria europeia, que levou a sua Língua a tanto lugar inóspito e distante, como lá no seu Araxá, no interior do Estado de Minas Gerais, no Brasil, de onde Maria Lúcia Lepecki era natural.
Em sua memória e porque ela a recitou tão bem, na entrevista, agora histórica, aqui várias vezes mencionada, transcrevo a bela estrofe do Prólogo do Poema D. Jaime, do injustamente esquecido poeta romântico, de forte sentimento patriótico, Tomás Ribeiro ( 1831 – 1901 )
Prólogo de D. Jaime
Meu Portugal, meu berço de inocente
Lisa estrada que andei débil infante,
Variado jardim de adolescente,
Meu laranjal em flor sempre odorante,
Minha tarde de amor, meu dia ardente,
Minha noite de estrelas rutilante,
Meu vergado pomar de um rico Outono,
Sê meu berço final no último sono !
AB_Óbidos, 08 de Agosto de 2011
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